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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

INFÂNCIA FELIZ

Crônica
Infância Feliz
Infância Feliz
by Romi Mari

E de repente o ar gelado da manhã de inverno  rasga-se pelos sinos da Igreja Matriz. Desde pequenininha convivendo com o mesmo som, não deveria mais me impressionar com ela. E contudo me recordo e me  surpreeendo em cada nota, como se fosse a primeira vez que a ouvisse.

O sino chama para a missa em julho,o auge do inverno, na cidadezinha do interior, na qual nasci, e eu fico imaginando que pessoas quando ouvem o sino atendem perfeitamente ao seu chamado. O pecador que vai se aliviar de suas culpas no confessionário? E eu uma menina que se prepara para a primeira comunhão, teria que passar por este confessionário, olhei assustada, Nossa! que fila enorme, as pessoas na fila devem ter muitos pecados, pensei. Ou a maioria da fila mulheres que se confessam o fazem apenas porque este é o seu hábito dominical?

Conheci a Matriz quando menininha. Era a mais completa, a mais linda, que já vi em toda minha vida, As paredes eram expostas por tijolos rústicos. Havia tumbas de bispos e arcebispos. No lugar onde hoje está a cúpula, uma cobertura branca e provisória atraía pássaros – e sua música se confundia com a do coral.

Outra lembrança inesquecível é a das solenidades da Semana Santa. A liturgia era cantada pelo coral das freiras – o Havia o aroma do incenso, a litania entoada a capricho, o diálogo sagrado que se estabelecia entre os cantores.

Singularmente, no entanto, a maior sensação de paz que eu vivia, na missa de domingo das 8h da manhã, ia sempre com minha mãe, a minha preferida, era a da tranquilidade emanada do dever cumprido. Era obrigatório ir à missa? SIM, era. Era  obrigatório  participar dos cantos e orações coletivos e das liturgias. E tudo isso me transmitia um sentimento de serenidade e de dever cumprido que não tinha preço.

Não pensem que eu não me distraía com as comemorações eventuais. Sim as distrações eram constantes, que muitas vezes tinha dificuldade para perceber em que parte da missa estávamos, Não creiam que não me chamava a atenção um garoto de rosto bonito. Não acreditem que eu me postasse alheio a um belo homem.

Mas tudo isso fazia parte do espetáculo – a missa sagrada que se desenrolava à minha frente. Era um teatro, com seus rituais e seus dogmas – e era preciso apreciá-la com unção.

Hoje! NÃO vou à missa. O fim do rito subjugou minha fé. Prefiro ir à um culto evangélico.Mas não esqueço da minha linda época em que a MATRIZ de São Lourenço  era minha vida integralmente.


sábado, 15 de novembro de 2014

Crônica: Quantas Fraquezas




 Crônica: Quantas Fraquezas!
Autora: Romi Mari

Não conheço as histórias de sua infância, adolescência, e juventude, dores e repulsas.

Não sou a  caixa-preta, que guarda com segurança, seu diário, seu esconderijo, este baú é seu, e só a ti pertence.

Posso errar minha caligrafia, posso escrever minha biografia, listar o meus medos, minhas angustia e temores e contá-los todos ao pai celestial que você chama de “braço ou Perna” que só eu tenho certeza, quando faço minha oração, de ser ouvida, tanto quanto me recordo das lições da minha  cartilha escolar da 4ª série, recordá-la da capa de bichinhos coloridos da cartilha Alegria de Saber.

Você não escondeu nada, suas loucuras, idiotices, todas expôs, nenhuma pergunta e tantas respostas. Nenhuma chave para a minha curiosidade.

Nunca se revelou tanto para outra pessoa. Expôs a quem nada pediu, xingou, a quem não conheceu, tais gafes e tais covardias permitidas à adolescentes inexperientes, destinado à estudantes sentados diante de mim no cotidiano escolar.

Confidenciou-me a rejeição amorosa, o rancor profissional, o abandono de Deus nas horas de solidão, aquilo que seu pai proferiu e que o magoou fundo, aquilo que sua mãe omitiu e lembras a dor que feriu fundo na alma.

Não tem vacina contra mim! Recuou! Baixou a Guarda! Depôs a mínima resistência! E disse Eu Venci:

Escolheu-me? Para confidenciar tuas fraquezas, é porque  viu algo que devo ter o dobro de tato, para falar contigo, o triplo de responsabilidade. Qualquer um conta com o direito de falhar, qualquer um desfruta da possibilidade de errar, menos eu. Sou o que realmente estudou seus pontos fracos e o lugar de suas veias.

Perdi a desculpa do incidente, a vantagem do lapso.

Sou a mais perigosa, portanto tenho a obrigação de defender-me, sim, mas antes de tudo, de tudo o que ouvi “li” a seu respeito não posso empregar para agredi-lo. Afinal, me tornaria semelhante, Cada desabafo que me confiou não serve para nada, a não ser para perdoá-lo.

A amizade, não tem finalidade doméstica, nem serventia para fofoca, é uma amnésia alegre: escuto, sorrio e consolo.

Não ouso soprar verdades, não sou dona da verdade, meu coração, é arquivo protegido.

Quem ama mergulha em hipnose regressiva, firmamos um código de quietude e cumplicidade, de zelo e compromisso.

Intimidade é um conteúdo perigoso, tóxico, explosivo. Por isso mantenho distância, Há amizades que esquecem que estão levando a valiosa carga e transformam a catarse em tortura psicológica, em chantagem emocional, em sequestro emocional, este não permito.

Suas confidências morrem comigo ou eu vou morrer nelas. Não podem retornar numa briga.Porque agora sim, estás bloqueado no face. Que eu morda a língua, queime a boca, mas não use jamais seus segredos. Aquilo que você me disse não é para ser devolvido. Todo o segredo é um sino sem pêndulo.

Não importa o que faça ou as razões da raiva, é covardia distorcer suas palavras.

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  • Profª Romi Mari